Cruzeirense Manoel Felipe revela como é viver na Austrália e explica passo a passo para jovens que sonham em fazer intercâmbio
O Jornal A Notícia apresenta uma entrevista especial com o cruzeirense Manoel Felipe, que embarcou em uma jornada transformadora do outro lado do mundo. Ele escolheu viver em Melbourne, cidade eleita sete vezes a melhor do mundo para se viver, um lugar onde qualidade de vida, diversidade cultural e eficiência urbana caminham lado a lado.

Durante os seis anos em que permaneceu na Austrália, um país reconhecido pela receptividade, pela multiculturalidade e pela forte relação entre estudo e trabalho, Manoel acumulou experiências que vão muito além das fotos em praias paradisíacas. Ele fala sobre adaptação, desafios com o idioma, choque cultural e as oportunidades que se abriram ao longo dessa jornada.

A conversa também se transforma em um guia prático para quem sonha em seguir o mesmo caminho: desde o planejamento até os cuidados essenciais para um intercâmbio bem-sucedido. Mais do que relatar o que viveu, Manoel busca inspirar jovens de Cruzeiro a enxergarem possibilidades que ultrapassam fronteiras e ampliam horizontes.
1. O que mais te impactou culturalmente quando chegou à Austrália?
O que mais me impactou foi a receptividade dos australianos e o multiculturalismo do país. Melbourne, especialmente, é uma cidade onde você encontra pessoas do mundo inteiro e todos convivem com muito respeito. Essa mistura cria um ambiente aberto, seguro e acolhedor. Também me impressionou a forma como tudo funciona de maneira organizada, com processos claros e uma cultura forte de confiança e responsabilidade coletiva.
2. Como é a convivência com pessoas de diferentes nacionalidades e como essa diversidade influenciou sua experiência?
A convivência é intensa e transformadora. Conviver diariamente com pessoas de tantas nacionalidades ampliou meu olhar sobre o mundo. Aprendi a respeitar diferenças, compreender costumes totalmente novos e até aprender outras línguas no convívio. Cada grupo cultural me ensinou algo e isso me transformou profundamente. Viver em Melbourne é, na prática, fazer parte de uma sala de aula global. Você aprende que não existe um único jeito certo de viver. Isso amplia seu repertório humano e te prepara para qualquer ambiente multicultural.
3. Quais foram os maiores desafios no início do intercâmbio e como você lidou com eles?
Cheguei à Austrália sem falar inglês. Esse foi meu maior desafio. Precisei estudar muito, insistir, conversar mesmo errando e me expor ao idioma todos os dias. Além disso, a adaptação à rotina, ao trabalho e ao ritmo da cidade também exigiu resiliência. Com disciplina e foco, o que parecia impossível virou o maior aprendizado da minha vida. A solidão inicial e a adaptação à rotina acelerada também foram marcantes, mas com o tempo a solidão virou crescimento pessoal, e a rotina se estabilizou com planejamento. Com o tempo, descobri que adaptação não é um evento, é um processo.
4. O que mais te impressionou no sistema educacional australiano e o que o jovem brasileiro poderia aprender com essa cultura de estudo?
O sistema educacional australiano é extremamente prático, moderno e conectado ao mercado de trabalho. A pontualidade, a disciplina e a autonomia são valores essenciais. Esse ambiente me motivou a ir além: depois do inglês, fiz quatro qualificações profissionais equivalentes a pós-graduações no Brasil — Diploma em Marketing & Communication, Diploma Avançado em Liderança e Gerenciamento, Diploma em Gerenciamento de Projetos e um Certificado em Business.
Escolhi estudar em Melbourne porque a cidade foi eleita por sete vezes a melhor do mundo para viver. Sempre fui apaixonado por gestão pública e sonhava aplicar esse conhecimento para ajudar Cruzeiro. Fui para ficar um ano, mas esse propósito me manteve lá por seis anos, aprendendo como uma cidade pode alcançar um padrão tão alto de qualidade de vida.
5. Para quem sonha em fazer intercâmbio, quais são as etapas práticas?
Além do planejamento financeiro e da documentação, é fundamental:
- Pesquisar muito bem a agência de intercâmbio, escolhendo uma que ofereça suporte real ao chegar no país.
- Definir seu objetivo claro: estudar, trabalhar ou ambos.
Escolher a cidade e a escola de acordo com esse objetivo. - Ter mente aberta para desafios, novas experiências e mudanças internas.
- Planejar os primeiros meses com calma para evitar surpresas.
Com organização, o intercâmbio deixa de ser sonho e vira um projeto de vida.
6. Que oportunidades de trabalho e aprendizado você encontrou na Austrália e como contribuíram para sua formação?
No começo, como a maioria dos intercambistas, precisei trabalhar em várias frentes para me estabelecer. Atuei em restaurantes, trabalhei descarregando contêineres, fui controlador de tráfego urbano, bem como em serviços de mudanças e logística. Esses primeiros empregos me ensinaram resiliência, disciplina e o valor de recomeçar do zero. E algo que sempre digo: quanto melhor o inglês, melhores são as oportunidades de trabalho. Depois que aprendi o idioma e me tornei fluente, portas muito maiores se abriram.
Com o domínio da língua e minha formação, pude atuar em áreas que realmente transformaram minha trajetória:
Atuei por quatro anos na Fórmula 1 da Austrália, na produção de um dos maiores eventos do país.

Trabalhei na Anexmedia, produzindo o programa de TV Industry Leaders, viajando por toda a Austrália e conhecendo de perto alguns dos maiores empresários do país.

Como voluntário, participei de inúmeras ações do Rotary Club de Melbourne, onde tive a oportunidade de conhecer a prefeita Sally Capp e aprender na prática sobre governança e gestão urbana.

Também realizei trabalho voluntário no Conselho de Cidadãos Brasileiros de Victoria (CCBV), oferecendo apoio consular, orientação e acolhimento a brasileiros recém-chegados.

Atuei no Melbourne Sports and Aquatic Centre, um dos maiores centros olímpicos da Austrália, trabalhando na produção de eventos e programas esportivos.
Essas experiências ampliaram minha visão de mundo e reforçaram meu propósito de servir, ajudar pessoas e aprender modelos de gestão pública que possam contribuir para o desenvolvimento de Cruzeiro, minha cidade e meu maior motivo de orgulho.
7. Como o choque cultural se manifestou no dia a dia e quais situações marcaram essa adaptação?
O choque cultural aparecia na forma como tudo tinha um protocolo claro, como o sistema funcionava para todos e como as pessoas realmente se ajudavam. A defesa da vida, o respeito às diferenças e o cuidado com a saúde mental são muito presentes.
Na pandemia, isso se expressou ainda mais. A Ester Weiss e a Pryscilla Ferreira já faziam, há muitos anos, um trabalho exemplar de apoio a estudantes internacionais. Minha iniciativa, junto com outros elas e outros brasileiros, potencializou o que elas já realizavam, e juntos conseguimos ajudar mais de 5 mil estudantes, oferecendo alimentos, roupas e itens essenciais. Esse trabalho cresceu e hoje continua através da Viva Vida Foundation, liderada pela própria Ester, um legado que me orgulha por ter contribuído.


8. Quais aspectos da qualidade de vida australiana mais chamaram sua atenção e por quê?
O que mais me impressionou foi a sensação de que o sistema funciona. Melbourne tem transporte público de alta qualidade, com tram gratuito no centro, o que facilita o deslocamento e gera inclusão. Mas algo que realmente me marcou foi a zeladoria urbana: parques bem cuidados, ruas limpas, acessibilidade, atenção ao espaço público e respeito coletivo. Para mim, esse é um ponto em que o Brasil ainda precisa evoluir muito e que faz toda diferença na qualidade de vida de uma cidade.
9. Se pudesse voltar ao início, o que faria de forma diferente no processo de intercâmbio?
Eu teria me preparado melhor para o inglês antes de embarcar e teria pesquisado mais sobre áreas profissionais onde eu poderia crescer mais rápido. Ter um plano mais estruturado nos primeiros meses pode acelerar oportunidades e reduzir inseguranças.
10. Que conselho final deixaria para os jovens de Cruzeiro que sonham em estudar ou trabalhar fora?
O principal é acreditar que é possível. O intercâmbio não é só para quem tem condições financeiras — é para quem planeja, pesquisa e corre atrás.
Comece pelo básico: junte dinheiro, estude inglês e busque informação confiável. E lembre-se: morar fora não é fugir de problemas, é aprender a resolvê-los de outra forma.
Se você der o primeiro passo, o mundo abre o resto do caminho.
E se precisarem de ajuda nesse planejamento, podem me chamar no Instagram: @maneco_

