“Sou uma urubu preta que cuida”: Justiça condena paciente que chamou técnica de enfermagem de ‘urubu preto’ em hospital de Poços de Caldas
Uma técnica de enfermagem de Poços de Caldas (MG) será indenizada após ter sido vítima de injúria racial dentro de um hospital particular da cidade. A decisão, em primeira instância, condena a paciente ao pagamento de R$ 6 mil por danos morais. O episódio ocorreu em março e causou forte repercussão na região.
De acordo com o processo, a paciente se irritou durante o atendimento, exigindo que o soro fosse aplicado mais rápido. Ao ser informada pela profissional que isso contrariaria a prescrição médica, a mulher passou a ofendê-la com termos racistas, chamando-a repetidamente de “urubu preto” na frente de pacientes, acompanhantes e colegas de trabalho.
“Ela falou várias e várias vezes, repetiu, dizendo que eu estava na profissão errada. Foi muito triste. Na hora em que ela me chamou pela primeira vez, eu fingi que não ouvi, mas ela continuou. Eu sou preta sim, mas sou uma urubu preta que sempre cuidou dela, que levantava às seis da manhã para dar toda assistência, até remédio na boca eu dava. E no final, fui chamada assim”, desabafou Najila Passos da Silva, de 31 anos, em entrevista à EPTV.
Após registrar boletim de ocorrência, a Polícia Civil abriu inquérito e confirmou o crime de injúria racial. O juiz responsável pela sentença afirmou que o dano moral é “evidente”, pois a ofensa atingiu a honra da profissional no exercício de sua função.
Najila disse que pretende transformar a dor em solidariedade e anunciou que irá doar o valor da indenização.
O caso mobilizou a cidade. O hospital onde Najila trabalhava manifestou apoio à funcionária e repudiou as ofensas. Entidades como o coletivo negro Dona Laudelina Campos Melo e o Centro Afrobrasileiro Chico Rei divulgaram notas de repúdio, exigindo mais educação racial e respeito aos profissionais negros.
O líder religioso Babalorixá Macurs Ty Odé também lamentou o episódio e destacou que “casos como esse mostram o quanto ainda é necessário lutar contra o racismo estrutural em todas as esferas da sociedade”.
Desde 2023, o crime de injúria racial é equiparado ao crime de racismo, tornando-se imprescritível e sujeito à pena de dois a cinco anos de prisão.

Foto: Reprodução EPTV

