Sexta-feira, Março 6, 2026
Plantão Policial

Maior estelionatária do Brasil é solta após 30 anos de prisão no Vale do Paraíba

Aos 65 anos, Dominique Cristina Scharf deixou para trás os portões da Penitenciária Feminina de Tremembé, no Vale do Paraíba, onde passou décadas. Considerada a maior estelionatária do Brasil, ela cumpriu mais de 30 anos de prisão e, no início deste mês, conquistou o direito ao regime aberto. Sua vida mistura luxos, crimes engenhosos e fugas que parecem roteiros de cinema.

Filha de pai norte-americano e mãe alemã, Dominique cresceu cercada de privilégios em São Paulo. Estudou em colégios renomados e conviveu com o conforto de uma família de classe alta. Mas, ainda jovem, começou a se envolver em pequenos furtos. A morte do pai e o afastamento da mãe marcaram o início de uma escalada criminosa que jamais seria freada.

Em 1981, aos 21 anos, foi detida pela primeira vez. A partir daí, sua vida virou um carrossel entre liberdade e prisão. Dominique criou identidades falsas, falsificou documentos e se tornou especialista em enganar lojistas, empresários e até instituições financeiras. Policiais a descreviam como alguém de inteligência acima da média e de rara capacidade para aplicar golpes.

Nos anos 1990, seu nome já estava ligado a dezenas de inquéritos. Cheques adulterados, vendas de joias falsas, hospedagens em hotéis de luxo sem pagamento e até o “golpe do amor”: envolvia-se com homens, fotografava-os em situações íntimas e depois exigia dinheiro em troca do silêncio. Em restaurantes sofisticados, não hesitava em plantar uma barata no próprio prato para escapar da conta.

O tempo trouxe ousadia. Dominique acabou se aproximando de quadrilhas de tráfico de armas e de carros clonados, enviando veículos roubados para o Paraguai e trazendo-os de volta adulterados. Em 2003, um assalto a um vendedor de joias a levou ao Tribunal do Júri sob acusação de tentativa de homicídio. Condenada a mais 12 anos, viu sua pena se acumular a quase seis décadas. “Nunca matei nem uma mosca”, defendeu-se à época.

Sua ficha criminal era tão extensa que, em 2016, a Justiça precisou unificar 20 processos de execução penal em uma única sentença: 57 anos, 11 meses e 10 dias. Ainda assim, erros burocráticos lhe abriram brechas. Em 2006, foi parar no semiaberto sem cumprir os requisitos, só retornando ao fechado dez anos depois.

Nem mesmo os muros foram sempre barreira. Dominique protagonizou fugas cinematográficas, como a que ocorreu no Carandiru: cortou o alambrado com um alicate e tentou escapar atravessando um córrego. Foi recapturada, mas deixou a marca de uma criminosa ousada.

Dentro de Tremembé, construiu uma imagem paradoxal. Em entrevistas, oscilava entre o arrependimento e a tentativa de romantizar sua trajetória. “Nunca me senti parte da população de lá. Tremembé tem assassinas, pedófilas e estupradoras. Esse não é o meu mundo”, disse certa vez.

Agora em liberdade, Dominique fala em recomeço. Sonha em visitar a família que vive na Austrália e em abrir uma confecção de roupas de tricô feitas à mão — ofício que aprendeu atrás das grades e que pretende transformar em marca própria. A aposta é usar a moda, seu interesse de longa data, como ponte para uma nova vida.

Mas, fora dos muros, ela carrega para sempre a alcunha que a história criminal brasileira lhe conferiu: a de maior estelionatária do país, personagem que transitou entre o glamour e o crime como poucos ousaram.

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