“Fui assaltado antes de ser espancado e atropelado”, diz pedreiro agredido em festa em Bom Jesus dos Perdões
O pedreiro Miguel Grapiúna quebrou o silêncio e deu seu primeiro depoimento público nesta terça-feira (24), após viver momentos de horror na festa de aniversário de Bom Jesus dos Perdões, em maio. Espancado, atropelado duas vezes e hospitalizado em estado gravíssimo, Miguel afirma ter sido vítima de um assalto antes de toda a violência: “Tem que ter justiça. Se não punir, isso vai continuar acontecendo”.
Sete pessoas já foram indiciadas por tentativa de homicídio: quatro adultos estão presos e três adolescentes foram apreendidos. A motivação do crime ainda está sendo investigada, mas o caso ganhou repercussão nacional após um vídeo da barbárie circular nas redes sociais, chocando pela brutalidade.
Miguel, que passou por cirurgias no rosto e no braço, agora tenta retomar a vida. Fala com dificuldade, anda com apoio e depende de medicamentos e exames constantes em Campinas. Ele relata que tudo começou quando foi até uma barraca comprar lanche e teve a carteira — com cerca de R$ 2 mil — arrancada por um grupo. “Me abordaram atrás da igreja e pegaram o dinheiro. Jogaram bebida no meu rosto. Fui no carro, peguei uma faca e fui na direção deles, mas eles correram. Na hora que entrei no carro pra ir embora, me cercaram. Eram oito ou dez”, contou.
Imagens de câmeras de segurança mostram quando Miguel desce da caminhonete com a faca. Ao retornar, é retirado do veículo com violência, espancado por diversas pessoas e atropelado duas vezes. Uma das passagens do vídeo mostra um dos agressores ao volante da caminhonete, jogando o veículo contra a vítima já desacordada no chão e depois atingindo a fachada de um comércio.
“Me puxaram pra fora do carro e aí não vi mais nada. Só fui acordar no pronto-socorro, vomitando sangue. Me levaram pra Bragança e tive parada cardíaca. Depois fui transferido pra Campinas”, relembrou. “A fisionomia deles eu não lembro. É como se eu tivesse com um óculos escuro nos olhos. A vista fica embaçada. Se eu me abaixo, fico tonto e posso cair.”
Sua esposa, Rosa Furlan Moraes, acompanha cada etapa da recuperação. “Ele teve duas paradas cardíacas. Quando o vi, entrei em desespero. Agora estamos na luta. Ele não pode trabalhar ainda, mas agradeço a Deus por ele estar vivo. Nossa Senhora Aparecida protegeu meu marido.”
Mesmo em casa, a rotina segue exaustiva. Consultas semanais e monitoramento das possíveis sequelas neurológicas mantêm a família em alerta. Miguel, emocionado, diz nunca ter se envolvido em brigas. “Tenho 15 anos de Perdões e nunca me envolvi em confusão. Foi a primeira vez que fui nessa festa. Estava vindo do trabalho. Agora meus amigos dizem que eu tenho dois aniversários.”
Ele insiste por justiça e teme que a impunidade faça novas vítimas. “Não fui o primeiro. Se não punir essa molecada, outros vão passar por isso. Tem que ter justiça.”
No mesmo dia do depoimento de Miguel, três dos jovens envolvidos também foram ouvidos no Fórum de Nazaré Paulista. A Polícia Civil já identificou todos os envolvidos e detalhou a agressão com base nos vídeos e relatos.
“Durante a festa da cidade, houve um desentendimento entre a vítima e um grupo de jovens. Ele empunhou um facão, e isso acirrou os ânimos. Os agressores o arrancaram da caminhonete e iniciaram os ataques com socos e chutes. Um deles ainda pegou a caminhonete e a jogou sobre a vítima”, explicou o delegado Hermes Nakashima.
Miguel Grapiúna sobreviveu por milagre. Mas a cicatriz da violência permanece em seu corpo e na memória de quem assistiu a uma das cenas mais brutais já registradas na cidade. A luta agora é pela recuperação — e por justiça.


